Um Ato de Sacrifício
“As pessoas não morrem, ficam encantadas. O mundo é para quem nasce de novo todo dia. Não dou adeus.”
— Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa)
Com essa citação, eu não pretendo cair em um sentido melodramático de despedida, muito menos declarar um ponto de partida com holofotes e confetes. Entretanto, talvez este post seja exatamente isso: uma cerimônia íntima, ainda que pública, para marcar a morte simbólica de uma versão minha que já não sustenta o futuro que eu almejo.
Eu acredito em rituais e na necessidade deles, seja em sentido psicológico, seja em sentido religioso. Eles representam algo maior: podem estar no ato de acordar, em uma oração, em uma promessa, ou na celebração de um matrimônio. Representam rupturas de ciclos anteriores que podem acontecer de forma privada ou pública, mas quando fazemos um ritual de forma pública, nos colocamos na posição de cumprir ou manter a imagem daquilo que propomos. E esse peso psicológico recai principalmente sobre quem não tem a integridade de cumprir aquilo que propôs.
Há pequenos rituais diários que se comportam como serpentes: aparecem de forma sorrateira, quase simpática, e quando percebemos já fomos picados e expulsos do paraíso. O celular, principalmente, age como um parasita que se tornou uma extensão dos meus órgãos, à la Cronenberg. São rituais diversos, de origem física e psicológica, mas talvez todos exijam o mesmo antídoto: um ritual de sacrifício - a mudança.
“Só o que está morto não muda”
A Lei de Pareto afirma que aproximadamente 80% dos efeitos vêm de 20% das causas. E o que isso tem a ver com mudança?
Pensando Pareto como metáfora, talvez uma pequena fração das nossas atitudes seja responsável pela maior parte dos nossos resultados. O problema é que boa parte da rotina costuma ser ocupada por hábitos automáticos, muitas vezes ruins, que me mantêm no status quo. A partir do momento em que eu decido alterar esse estado, o meu ambiente se transforma, e isso afeta as pessoas à minha volta. E é aí que está o meu ambiente, meus 80%, meu status quo: se eu não o matar, eu estarei morto.
Em O Estrangeiro de Albert Camus, Meursault comete um crime, mas ele não é julgado pelo crime em si, e sim pelo fato dele quebrar o status quo emocional. Talvez seja daí que venha um medo enraizado e paralisante: a sensação de que mudar é assinar minha própria sentença. Mas talvez seja justamente o contrário: a mudança não é veneno; é remédio.
Talvez por isso eu tenha pensado na morte de Sócrates: nem todo cálice é veneno, mas há coisas que só parecem remédio depois que aceitamos bebê-las.

Obviamente toda ação tem uma reação, mas sou pressionado constantemente por uma ansiedade que repete: “Quebre o padrão hoje, ou o loop se repetirá amanhã.” E tudo ao redor parece conspirar para preservar o antigo pacto: o celular, o cansaço, a desculpa elegante, a vontade de deixar para amanhã. Nada disso parece grave isoladamente. É só mais uma manhã perdida, mais uma aba aberta, mais uma promessa adiada. Mas é assim que o duplo sobrevive.
Quando alguém muda, nem todo mundo se incomoda com a mudança em si. Às vezes, as pessoas se incomodam porque a nossa mudança denuncia a permanência delas. Mas essa entidade que age no meu lugar, quase como o duplo de Dostoievski, não perturba ninguém. Ele não exige nada dos outros… e, pior, não exige nada de mim.
Só que eu preciso sacrificar esse duplo. Porque, se eu não mudar, eu morro… e ele fica no meu lugar.